Camping dos Anos 80

O que diriam alguns pais nos dias atuais se cerca de 8 a 10 adolescentes dissessem que iriam passar 10 dias nas praias da Ilha de Itaparica, sem comunicação, em barracas de camping na beira da praia?

A resposta seria:

NÃO!!!

IMPOSSÍVEL!!!

NEGATIVO!!!

Pois, nos anos 80, essa era uma das melhores formas de lazer que uma turma de jovens menores de idade, de classe média, no STIEP, bairro simples de Salvador, tinha para se divertir e se sentir mais livre. Esse projeto de acampar era um processo complexo. Primeiro, conseguir o dinheiro era o mais difícil.

Segundo, limpar e arrumar as barracas.

Tínhamos três à nossa disposição: uma gigante, bem antiga e com diversos furos no teto, pesada como um poste, conhecida como circo; uma Alba, para cinco pessoas, zero bala; e uma Transa-A2, para duas pessoas.

Terceiro, era reunir todos os equipamentos e itens necessários, como botijão de gás com boca de fogão, lanterna, panela, prato, talher, colchonete, lençol, toalha, feijoada e dobradinha em lata, farinha, hambúrguer, salsicha, pão, refresco Tang ou Hi-C e qualquer bebida alcoólica que pudesse ser sorrupiada antes da viagem, sem que os pais percebessem.

Enfim, chegava o dia da viagem. Imagine a confusão para transportar tudo isso de ônibus. Quando algum pai se oferecia para transportar essa carga, era uma maravilha, pois o resto da turma só tinha que transportar as mochilas no velho busu.

Mas, quando aportávamos no Terminal Turístico de Bom Despacho, tudo ficava maravilhoso. Eram dias que podiam ser comparados ao ouro olímpico. Acordar à hora que quisesse, pescar, mergulhar, violão na beira da praia, ao som e à brisa do mar, bebida alcoólica liberada, gatinha e a autonomia, a liberdade de nos sentirmos donos de nós mesmos por uma semana.

Tudo era maravilhoso, até comer dobradinha e feijoada preta por uma semana (só nós e o capeta sabemos a quantidade de sal que tem aquela peste), comprar um pão francês e pôr uma salsicha em lata dentro e dizer que era cachorro-quente. Comer siri e peixe pescado por nós mesmos.

Havia, em Amoreiras, uma vila de Itaparica, um barco para cinco pessoas chamado Danúbio, propriedade de um senhor conhecido como Careca, pai de um amigo nosso. Era diversão certa com ele. E olhe que era um barco a remo. Era como se fosse um iate para nós.

Quem esteve em Amoreiras nos anos 80 conheceu uma velhinha que vendia mingau e cuscuz na praça pela manhã. Pense em uma gostosura! Que maravilha eram aqueles quitutes.

Não gosto de comparar ou mencionar passado com presente. Mas aquilo era diversão raiz. Simples, mas invejado por muitos. E sinto que, hoje, por diversos fatores, os jovens não podem ou, quando podem, não querem provar dessa beleza que é acampar.

Quando retornávamos para nossa casa, era mais uma semana de diversão, quando contávamos nossos casos e experiências daqueles dias que estávamos acampando.

Uma vez, armamos nossas barracas em Amoreiras e veio uma senhora nos solicitar para não jogarmos nossos resíduos em qualquer lugar. Nós, com a educação que tínhamos, falamos para ela que gostávamos da natureza e tínhamos sacos para o descarte dos resíduos no local adequado.

Com isso, surgiu uma amizade e garantimos água gelada e suco de manga oferecido pela senhora e, às vezes, até água para banho pela tarde.

Outra vez, no pico do verão, uma falta de água gigantesca: cisternas, fontes, poços, quase todos com nível de água reduzido. Imagine o perrengue. Simplesmente tomávamos banho de mar com sabonete, xampu e creme Rinse (condicionador). Depois era só desodorante, perfume e creme para cabelo.

Muitos dessa turma, hoje adultos, trabalhadores e pais de família, quando nos encontramos, damos muita risada dos casos dessas aventuras e dos participantes dessa turma, como: Léo, Déo, Serginho, Kito, Marcos, Lulu, Paulo Sérgio, Neno, Raimundinho, Ricardo, Zé Luiz (in memoriam), Tadeu e muitos mais ainda.

Esse conto vai como uma homenagem a Zé Luiz, que já se encontra nos campings do céu.

Ass.: Um Eterno Veranista

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