A Gangue das Galinhas
Existia em Tairu uma cultura local de surrupiar galinhas no período de São João. É verdade. A brincadeira era que, a qualquer hora do dia ou da noite em que o dono do galinheiro desse a bobeira, alguma galinha era surrupiada. Isso provocou muita briga e atrito naquela época. Mas só no período de São João era permitido. Após o São João, a brincadeira acabava e voltava-se à vida normal. E aí, após esse período, se ocorresse algum roubo de galinha, podia ser julgado e sentenciado pelo tribunal popular local.
Lembro de uma vez, me foi contado, que um senhor morador da rua de cima, chamado seu Antônio, teve de uma só vez dez galinhas roubadas fora do período junino. O burburinho foi grande. O ato foi investigado e os autores foram descobertos por seu Antônio e sua equipe de busca e investigação, que logo após a descoberta ameaçou prestar uma queixa na delegacia.
Isso levou o pai de um dos meliantes a pedir a seu Antônio para ele não levar esse caso adiante, pois a mãe do indivíduo tinha problemas cardíacos, o que podia levá-la a passar mal. Quando seu Antônio descobriu a casa onde foram cozidas as penosas e quem foi o cozinheiro, soube que ele era caseiro de uma casa em um condomínio na Rua do Chafariz, próximo à praia. O caseiro, percebendo o sangangu em que se meteu, nem pediu demissão. Fechou a porta da casa e foi embora, sem nunca mais voltar para Tairu. Pense no medo que esse cidadão tinha de dormir atrás das grades.
Certa vez, no São João, lá pela madrugada, após eu retornar de uma birita pelas ruas de baixo, na rua da igreja, cheguei próximo a uma casa na rua de cima e vi uns suspeitos portando um saco cheio e uma galinha na mão. Escondi-me atrás de um arbusto e dei um susto tão grande neles que eles jogaram uma das galinhas longe. A galinha caiu no mato. Só que, como eles eram em maior número, prometeram aprontar uma comigo se eu não desse conta da galinha arremessada. Resultado: me custou ficar no escuro, num monte de cansação e urtiga, pisando até achar essa maldita galinha. Graças a Deus eu achei.
Uma equipe dessa um dia foi na rua que hoje é a da pizzaria. Quando chegaram lá, pegaram a galinha da casa de uma senhora chamada dona Cerice. O filho dela estava na equipe de depenar e tratar. Só que, quando foram preparar o pacote das galinhas, veio uma pata. Quando ele a pegou para depenar, percebeu que não era um pé de galinha, e sim um pé de pata. E ele gritou: “A pata de mamãe, a pata de mamãe tava choca”, indo ao choro muito rápido. Creio que o choro foi potencializado pelo remorso e pelo excesso de cachaça, licor e cervejas.
Já nos anos 2000 reuniu-se uma equipe boa em Tairu, muito boa mesmo. Eu diria até que era uma milícia das galinhas. Eles passaram de São João a São Pedro surrupiando galinha. Pegaram galinha aqui, ali e acolá. Rua de baixo, rua do meio, condomínio. Chegou uma hora em que não tinham mais onde pegar galinha. A turma se reuniu e foi em direção ao entroncamento. Quando chegaram a um mercado lá, disseram firmemente para o dono: “Nós somos uma equipe e fazemos uma brincadeira de manter a tradição de roubar galinha no quintal dos outros. Gostaríamos de saber se vocês podem ceder para a gente uma ou duas galinhas congeladas para não deixar essa tradição morrer”.
A menina do caixa e o dono do mercado automaticamente abriram o freezer, pegaram uma ou duas galinhas e entregaram para os meliantes. Eles saíram todos contentes.
Cito que, dessa turma, dessa milícia das penosas, a cozinheira era uma jovem de Tairu que hoje, casada, tornou-se evangélica. Por respeito à nova vida dela, posso até saber o nome, mas é melhor não citar. Até porque, se alguém for contar essa história para a irmã hoje, ela certamente vai dizer logo: “TÁ REPREENDIDO E AMARRADO”.
Ass.: Um eterno veranista
