O Foguete das Meninas – Tairu, Vera Cruz
Moravam numa rua de Tairu algumas meninas jovens, bonitas, educadas, brincalhonas e inteligentes. Como a maioria dos brasileiros e brasileiras, elas curtiam a vida, trabalhavam e se cuidavam. Acordavam cedo, iam para o trabalho e, à tarde, ao chegar em casa, faziam exercícios para queimar calorias e fortalecer os músculos. Não existia academia no Cone Sul da Ilha de Itaparica naquela época, então a malhação era feita em casa mesmo.
Ao chegarem, as meninas ficavam à vontade, pois os muros altos impediam que fossem observadas por bisbilhoteiros.
Mas o diabo é sujo, como diz o ditado. Ninguém sabe como, mas algum miseravi, ao tentar colher mangas, descobriu a rotina fitness das meninas e espalhou a novidade, que logo virou entretenimento para os meninos da área.
A sabedoria popular diz: “quem fala demais dá bom dia a cavalo”. Um deles, cheio de orgulho, contou a descoberta a Bequinho — sempre ele! — que, com aquela língua afiada que parece ter parte com o “sete-pele”, foi logo comentar o assunto com uma das meninas, o que gerou desconforto e muita raiva entre elas.
Por coincidência (ou destino), havia sobrado um rojão-foguete de 18 tiros de alguma festa da igreja, e Bequinho o cedeu para que as meninas se vingassem.
O ponto de observação dos sorrateiros era uma mangueira atrás do fundo da casa. Eles se revezavam nos galhos, quase como se estivessem numa arquibancada de circo, disputando quem iria “assistir” no dia, para que todos tivessem chance de “curtir o visual”. Haja democracia e organização.
Naquele dia, as meninas chegaram do trabalho e começaram os exercícios como de costume. Quando perceberam que a mangueira já estava cheia de espectadores escondidos, uma delas apagou as luzes do quintal. A outra entrou na cozinha e saiu de lá com o foguete aceso, mirando diretamente a árvore.
Quem estava nos galhos nem teve tempo de reação. O porô-popô foi intenso! Houve menino ouvindo tuim-tuim nos ouvidos por muito tempo; outros ficaram com o peito e o rosto sapecados pelas explosões de pólvora. Teve um que chegou ao ponto de encontro inicial usando apenas um pé de sandália. Outro demorou para voltar porque foi buscar o boné perdido no meio da mangueira.
Dizem que, depois desse episódio, alguém pediu a poda da árvore — encerrando, assim, um ciclo de diversão dos jovens bisbilhoteiros.
Ass. Um eterno veranista

