O Bar de Bequinho – Tairu, Vera Cruz


Quem viveu os anos 90 em Tairu e não frequentou o bar de Bequinho, ou era evangélico, ou não era descolado, ou está mentindo. A estrutura do bar nunca foi das melhores — vivia sempre em reforma — mas a boa essência estava no atendimento.
O serviço de Bequinho era bom, mas o de sua mãe, Dona Yolanda, era ainda melhor. Viúva, católica praticante, elegante, bonita, uma mistura de negra com índia. Dona Yolanda tinha uma paciência infinita e uma bondade que não cabia no peito. Cozinhava bem como poucas pessoas. Quantas vezes estávamos no bar bebendo e, do nada, ela aparecia com um tira-gosto de cortesia. Bequinho, brincalhão, ameaçava cobrar dizendo que era o almoço da casa, mas logo era repreendido por ela. Uma verdadeira personagem imortal de Tairu City.
No bar, todo mundo era bem-vindo: pescadores, trabalhadores braçais, veranistas, idosos, patricinhas, mauricinhos, gringos… era uma mistura democrática de biriteiros. Tira-gosto tinha, creio que três vezes por mês. Papel higiênico? Um rolo por dia — “use com moderação”. Já a limpeza dos copos e pratos era impecável, reflexo da boa gestão de Dona Yolanda.
E Bequinho? Uma figura única. Forte, coração maior que ele, ótimo mergulhador, bom de briga, bom de copo, excelente papo. Gostava de tirar onda de DJ, se virava como construtor, metido a arquiteto, marceneiro, cozinheiro… e ainda se achava namorador.
Certo dia surgiu a dúvida sobre o nome do bar. Sugeriram “EscoBAR”, mas a ideia foi logo descartada — afinal, havia muitos gringos por ali, e o nome poderia gerar suspeitas e ruídos. Outra sugestão, feita por Dona Yolanda, foi “Cantinho da Janaína”, homenagem a uma sobrinha dela. Mas a galera caiu matando: “isso é nome de bar de corno!” e prometeu boicote. No fim, ficou sem placa e sem nome, conhecido apenas como Bar de Bequinho.
Quando se falava em mulher bonita, podia ir lá. Em pleno verão, só de primas ele tinha umas oito, fora as amigas e clientes. Uma vez, atendendo umas veranistas no balcão, Bequinho perguntou se preferiam copo ou canudo. Elas pediram canudo, até que um amigo soltou a pérola: “Os canudos são reciclados, mas bem lavados com água quente.” Rapidamente, as moças mudaram de ideia. Enquanto isso, Bequinho implorava para o amigo desmentir, sem obter sucesso.
O som do Bar de Bequinho era uma coisa personalizada. Não se tocava música que não fosse de qualidade. Sempre músicas top: MPB, rock’n’roll, axé… música de primeira. Esse era um grande diferencial do bar. Não adiantava chegar pedindo qualquer música que não fosse boa, pois praticamente não era atendido. E, quando por muita insistência alguém era atendido, logo a música era rejeitada pelos frequentadores. Ele ainda promovia eventos com cantores locais que faziam Tairu se movimentar. Era a sensação nos finais de semana, principalmente no verão. O homem era um empresário de visão.
A ilha passava por tempos violentos. Alguns clientes iam armados e deixavam as armas sob a guarda de Bequinho. Uma noite, depois de muita bebida, resolveram usar garrafas como alvo. Imagine: seis a oito armas disparando — .38, 7.65, .22 — em plena madrugada. Logo depois, alguém imitou uma voz feminina dizendo: “Meu marido quer me matar, meu marido quer me matar!” Não demorou para uma viatura da polícia passar devagar em frente ao bar e perguntar se estava tudo bem. Nervoso, Bequinho respondeu: “Tudo tranquilo.” Agora pense no barulho e na quantidade de histórias criadas no outro dia pelos moradores diante de tanto tiro.
E como todo bom boêmio, Bequinho também se metia em aventuras amorosas. Uma vez, numa madrugada, deixou o bar sob o cuidado de um amigo para fazer um love com uma cidadã. A moça, não era das mais bonitas mas tinha seus encantos: simpática, educada e limpinha. No entanto, ao voltar do encontro, Bequinho pisou numa tampa quebrada de hidrômetro. A perna entrou no buraco, arrancou um pedaço graúdo de pele e ele voltou para o bar mancando, com a canela sangrando. Ô situação maldita!
O inverno em Tairu era frio e cruel, e tinha uma dita cuja, bem arrumadinha e encorpadinha, que morava nas redondezas com quem ele mantinha um embaraçamento emocional. Ela, moradora nativa local, creio que o mais longe que tinha viajado foi até Santo Antônio de Jesus, imagine, mais ela era pra frente: queria fazer poses, cenas eróticas, caras e bocas.
Uma vez, após fazer o love, desceu do quarto dele — que ficava em cima do bar —, foi ao freezer e pegou uma cerveja gelada. Queria fazer aquela cena bonita de jogar uma bebida no peito do amante para depois beijar. Esqueceu que isso tinha que ser feito com vinho, uísque, conhaque… alguma bebida natural. Ela pegou a cerveja a menos 5 graus e jogou no peito do Bequinho. Ele, já relaxado e no primeiro sono, levou aquele choque térmico: a alma subiu e “os mói dos ovos” murcharam. Segundo relatos dele, aquela noite não deu mais nada com ela, pois o clima foi cortado.
Ele é muito brincalhão, às vezes com espírito maligno incrustado no couro, e tem uma dívida alta com as crianças daquela época, que hoje já são adultos — empresários, profissionais liberais e etc. Perturbava tanto esses jovens que hoje, quando anda em Tairu ou Salvador, fica meio assustado, com medo da vingança dessas “crianças”.
Um deles, hoje empresário de um bar em Tairu City, sofreu tanto com as brincadeiras que acho que Bequinho nem pode ouvir falar no nome dele.
Outra vez, implicava tanto com o filho de um amigo — dizia que o menino era menina e que não tinha pinto — que um dia o garoto se vingou. Bequinho voltava do mergulho, de sunga, com pescaria no ombro, arpão e espingarda na mão. O menino pegou um garfo no bar, chegou por trás e enfiou na bunda dele com tanta força que ele deu um pinote e parou quase um metro à frente!
Certa vez, houve uma festa na Vila de Coroa. Ao sairmos de Tairu, fomos todos na picape emprestada de um senhor da vila, seu Antônio. Na saída do bar, fizemos uma aposta: quem não beijasse ninguém na festa, ao voltar, teria que comer uma cebola crua e inteira. O carro foi lotado: oito homens e algumas amigas.
Ao chegarmos, um primo de Bequinho, meio lento, em 15 minutos já estava beijando uma dita cuja. Ele, para se desinibir, tomou um conhaque e voltou dizendo: “A garçonete está me dando mole, já estou perto de beijar.” E assim foi, cada hora que voltava, alguém já estava “fichado” com uma menina. Na sexta ou oitava dose de conhaque, já falava embolado. Resumindo: não pegou ninguém. Na volta, o primo lento bêbado vomitou nas costas de Bequinho, e ele ainda teve que cumprir a aposta: comer uma cebola grande e crua na porta do bar. Aquela noite não foi dele.
O bar era tão mágico que, certa vez, um desses cabras da religião “Hari Hari” apareceu numa noite de baixa estação. O tempo já estava esquentando. O sujeito olhou para a irmã de um grande amigo dele; ela olhou de volta. Num passe de mágica, o Hari Hari deu uma desculpa, montou no jipe Niva e saiu por um lado. A dita cuja saiu pelo outro. Nós percebemos: o Hari Hari fraquejou. Magias do Bar de Bequinho.
Certa vez ele ficou em um dilema. Tinha um bar na praça que abria à tarde. Mas no pico do verão, a turma toda ficava na praia, e ele sozinho no bar. Teve então a ideia de criar o Bar da Praia, no mesmo estilo e com a mesma organização do da praça. Tira-gosto era raridade, mas a cerveja era bem gelada, tinha bom som e gente bonita.
Enfim, hoje Bequinho é um homem casado, com uma mulher bonita, gente boa e encantadora — graças a Deus. Migrou para o ramo de fornecimento de som e equipamentos para eventos. O bar dele foi vendido e está em obra, creio que para virar um prédio comercial.
E fica, mais uma vez, a lembrança dos bons tempos da vila de Tairu.
Ass. Um eterno veranista

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